Motivação

“(…) se em 2013 tudo parecia incerto, minha única certeza hoje é de que as coisas seguem do mesmo jeito.”

40ª Cerimônia Tradicional da família Moy Jo Lei Ou, em 2013.

Naquele ano, começava minhas atividades na MYVT junto com meu amigo e irmão kung fu, Filipe Sugaya, que veio a falecer em outubro do ano passado. Estive afastado por alguns anos, mas já estou decidido a voltar de forma de integral à vida kung fu. Nessas linhas que seguem, espero passar uma ideia da minha motivação para tal.

Não lembro bem como conheci o Sugaya. Talvez tenha sido em alguma noite, bêbado, em algum estacionamento de algum supermercado. O que me lembro era da sua péssima mania de querer interromper toda e qualquer pessoa que tocasse violão, pedir emprestado e começar Tears Don’t Fall, do Bullet From My Valentine. A inconveniência era tanta que uma vez montamos uma banda com uma proposta, mas o Sugaya conseguiu com que ela tocasse apenas várias músicas do Bullet, repetidamente.

Mas não é só de sua insistência que vivem minhas memórias. Poderia numerar várias situações, desde o gudang que ele insistia em fumar, passando pela nossa loucura de reagir a um assalto na Avenida das Américas no caminho para o mogung, até nossa admissão na família em 2013. No entanto, não há necessidade para tal.

Quando me afastei do clã, o motivo principal era meu ombro problemático, o qual operei no início do ano. Alguns sihing diziam que isso não é um problema, mas eu que nunca fui de me aproximar muito das pessoas, me sentia ainda mais distante sem praticar. O ombro talvez fosse uma desculpa. Ao final de 2015 as novas responsabilidades eram tantas e caiam como amêndoas na minha cabeça. Todas tão pesadas, que não via sentido em assumir mais algumas sem nem estar praticando.

Ao final do ano passado, esbarrei com o si hing Guilherme Farias no BRT e voltamos para a Taquara conversando. Fiquei sabendo por ele, dentre várias outras coisas — como suas desventuras e conquistas no continente africano —, que meu amigo havia falecido. Não tenho redes sociais, como facebook, então não fazia ideia disso. O mais dolorido era que, pouco tempo antes, Sugaya havia pedido para reingressar nas atividades da família, mas não pela prática, mas pelas relações entre os integrantes do clã.

Aquilo me abalou muito e, ao chegar em casa, descobri as condições do acidente, não consegui aceitar o laudo. A verdade é que eu nunca confiei no sorriso constante do Sugaya, que era constante até mesmo em situações de tensão, estresse e tristeza. Seu bom-humor nunca me convenceu, e, se em 2013 tudo parecia incerto, minha única certeza hoje é de que as coisas seguem do mesmo jeito. Tenho minhas dúvidas sobre a última postagem dele no facebook, tenho dúvidas sobre sua alegria constante, sobre o motivo dele ter vindo atrás da família depois de tanto tempo, e tenho dúvidas também até sobre a relevância de todas essas dúvidas. O fato é que meu amigo e irmão kung fu esteve no mogun e eu não estava lá para recebê-lo.

Obviamente não tenho a pretensão de supor que, se eu estivesse lá, hoje o resultado seria outro. Mas, categoricamente, as coisas seriam diferentes. É ainda mais doloroso já que, pouquíssimos dias antes do trágico final, estive em frente ao condomínio do Sugaya com minha preciosa companheira para comer um sanduíche que costumávamos comer juntos. Pensei em ligar para ele e convidá-lo a se juntar no trailer, mas como não tinha o número dele, nem contato em redes sociais, deixei pra depois com a maior naturalidade do mundo. O complicado é que não tenho mais como alcançar esse “depois”.

E não foi só com Sugaya. Poucos dias depois do meu sihing me dar essa trágica notícia, recebo informação de que outra amiga, Anna Priolli, também teve um final trágico em um incêndio em sua casa. Eu não tinha como me arrepender de não ter ido vê-los antes, já que ninguém prevê o inesperado, mas já aprendi a lição. Hoje faço questão de me despedir e não deixar pessoas queridas para depois.

Neste ano, volto a me aproximar do clã, depois de alguns anos afastados por limitações de vários tipos. Diferente da aproximação de seis anos atrás, dessa vez chego sozinho, mas abraçado por pessoas queridas. Ainda sem que ninguém me pedisse, me sinto herdeiro da vontade do meu querido amigo de voltar para a vida kung fu. Chego, então, com uma nova responsabilidade que se confunde com motivação. Quer dizer, o que me move para frente já não é mais vontade ingênua de “aprender a lutar”, mas o respeito com o compromisso que assumi para com essas mesmas pessoas queridas que me recebem, e com as que já não podem mais me receber também. Assumi, dessa forma, a tarefa de desenvolvimento no Ving Tsun com peso dois. Agora não só por mim, mas por nós.

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